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O Calça Curta

*Estemir Vilhena da Silva


Este era o apelido de um guarda noturno que usava uma bermuda, ou seja, uma calça abaixo dos joelhos para fazer frente ao calor reinante na cidade de Santarém. Como na época ainda havia poucos ladrões, o seu divertimento favorito era observar o comportamento dos habitantes durante a noite para, no dia seguinte, relatar aos seus conhecidos sempre informando que a dona da bunda mais recheada da cidade, casada, estava de romance com seu beltrano, esperando, dessa forma, despertar o desejo sexual nos seus informados. Assim, zelar pelo patrimônio do homem mais rico, que o contratara, tornara-se para ele um serviço quase secundário. Porém, suas informações tinham sempre pessoas constantes da arraia miúda da sociedade, por isso tais informações, a uma certa altura, já não tinham o mesmo impacto de outrora.

Mas um dia ele chegou com uma informação que era uma verdadeira bomba; a mulher de uma alta autoridade estava de romance com um homem bastante conhecido da sociedade local. Ele, inclusive, tinha visto o encontro deles onde houve muitos beijos e abraços. Aí, voltaram a querer saber dos detalhes do romance e ele se fazia de difícil, pois a mulher era verdadeiramente muito bonita e objeto do desejo dos rufiões da cidade. Alguns diziam: “Dificilmente me engano; só pelo olhar dela, logo soube que não era de confiança”; outros, só para falar mal, adiantavam: “Vejam só, uma mulher rica como ela é, tem tudo de bom que sempre desejou, arruma um outro homem. Vai ver que o marido não é o tal”, e por aí afora.

Um dia, numa discussão entre um outro alto figurão da cidade com um parente do marido traído, o primeiro deixou escapar: “Ora, vai cuidar da tua cunhada que anda dando para o fulano”. O seu desafeto respondeu-lhe: “Esta acusação tu vais ter que provar ao marido dela”. Logo o marido soube, e através de um serviço de auto-falantes desafiou o acusador dizendo que onde o encontrasse que estivesse preparado porque ia comer chumbo grosso. A honra dele seria lavada com sangue por não admitir que fosse caluniado vilmente.

A população logo se alvoroçou sabendo que haveria um duelo à semelhança dos melhores filmes de bang-bang, E de fato, numa noite em que um se aproximou de outro, houve um terrível tiroteio no qual o acusador acabou morto. Os parentes da vítima logo quiseram saber de onde viera a notícia que acabou custando uma vida tão preciosa. Aí começou a apertar para o lado dos faladores que temiam serem identificados, ou mesmo os inventores de tal boato, e dessa forma serem molestados pelos parentes da vítima. Assim ao lhe ser perguntado, negavam saber qualquer coisa. Quem se encontrava em situação crítica era o próprio Calça Curta, que havia espalhado a notícia da infidelidade, pois os seus conhecidos, aqueles que recebiam suas informações, avisaram-no: “Olha, assim que descobrirem quem espalhou tal notícia tu estarás morto”.

Calça Curta um dia desapareceu da cidade. Anoiteceu, mas não amanheceu. Sumiu como por encanto e nem mesmo os parentes mais próximos sabiam informar onde se escondeu o antes guarda noturno. Largou o emprego, deixou a família e escafedeu-se. Dizem que ele fugiu da própria família.

Tempos depois correu a notícia de que o Calça Curta havia morrido de morte natural numa cidade do Amazonas, para onde se mudara depois dos conselhos de alguns poucos amigos. Cinco anos mais tarde, um seu compadre em visita a uma terceira cidade, passeando de noite no Largo da Matriz, resolveu sentar-se num dos muito bancos do Largo, quando de repente sentou-se a seu lado o famoso Calça Curta. O compadre levou o maior susto, pensando estar vendo uma alma de outro mundo. O outro logo o tranqüilizou: “Não se assuste, compadre, fui eu mesmo quem espalhou a notícia de minha morte. Logo que me mudei, comecei a trabalhar na compra e venda de lotes de gado pronto para o abate e minha vida parecia que ia dar certo, porém lá um dia empreguei todo o meu lucro e alguns empréstimos na compra de um lote bem maior do que costuma fazer, e... cúmulo do azar, todas as reses compradas estavam bichadas e por isso fui obrigado pela fiscalização a me desfazer delas. E foi dessa forma que acabei por contrair uma grande dívida no comércio local. Impossibilitado de saldar tal dívida, espalhei na cidade que eu havia morrido e me mudei de novo. Só assim presumo que já me esqueceram”.



*Estemir Vilhena da Silva É professor e escritor santareno. Vai publicar em breve o livro “Roteiros de uma vida”.

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