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Seduc forma primeira turma de professores indígenas do oeste do Pará

“Ante a minha comunidade e a nossa consciência, servir com lealdade os deveres da nobre missão de educar para maior grandeza da pátria, do nosso povo e em especial de nossas crianças”. O compromisso, também proferido na língua Carib, foi assumido por 36 indígenas de dez etnias residentes no oeste do Pará, durante a formatura da primeira turma concluinte do Curso Normal, em Nível Médio, de Formação de Professores Índios do Pará, promovido pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc), na noite da última segunda-feira, 27, no Cliper Santo Antônio, em Oriximiná.
Os conluintes do curso de magistério são indíos das etnias Cykiana, Hiskaryana, Tunayana, Kaxuyana, Katuena, Mawayana, Tiryió, Xereu, Wayana e Way Way. Os professores já atuam em seis escolas de Ensino Fundamental localizadas nessas aldeias, onde estudam cerca de 750 alunos indígenas, garantindo um ensino intercultural e bilíngüe, característico da educação escolar indígena.
O Magistério Indígena é ministrado pela Escola Itinerante de Formação de Professores Índios do Pará, anexo ao Instituto Estadual de Educação do Pará (IEEP). Outras seis turmas com 268 indígenas, de 37 povos, cursam o Magistério Indígena nos seguintes polos: Altamira, Marabá, Oriximiná, São Félix do Xingu e Santarém. Os formandos participaram de aulas nas próprias aldeias, nas cidades de Oriximiná, Santarém e Belém, em quatro séries, com disciplinas pedagógicas do magistério tradicional, História da Educação Indígena, Antropologia, Lingüística Aplicada e Língua Indígena.
Na aldeia Mapuera, moram cerca de 1.200 indígenas Wai Wai. Para o cacique Eliseu Wai Wai, a expectativa é de que a educação nas aldeias melhore com a formação dos professores. “Essa formação do povo Wai Wai é essencial para garantir a tradição linguística especialmente entre as crianças. Com os nossos professores atuando nas escolas das aldeias, conseguimos manter nossas crianças nas nossas terras”, explicou o cacique, destacando que “olhar para o futuro é pensar e ver o povo indígena no Ensino Superior”.
  De acordo com a secretária municipal de Educação, professora Hilda Viana, é de suma importância a formação inicial e continuada para os professores da educação escolar indígena. “É muito importante termos esse professor qualificado nas escolas de Ensino Fundamental localizadas nas aldeias, para que eles possam atuar dentro de seu território, garantindo uma educação de qualidade e que assegure a preservação da sua cultura. Em todo Pará existem 55 diferentes povos indígenas. Nessas comunidades há cerca de 12 mil estudantes matriculados em escolas públicas dos ensinos Fundamental e Médio.
Para o secretário especial de Promoção Social do Governo do Estado, professor Nilson Pinto, escolhido o paraninfo da turma, a formação de professores indígenas para atuar nas próprias aldeias de origem “representa um grande passo no sentido de repassar às crianças da aldeia os conhecimentos básicos adquiridos pelos civilizados, sem abandonar a sabedoria indígena ancestral acumulada pelas populações indígenas. São professores bilíngües que conhecem perfeitamente as tradições, os usos e os costumes locais e, com isso, tem melhores condições de contribuir para a formação integral das crianças indígenas”, afirmou.
Nilson Pinto destacou, ainda, o trabalho de resgate das formações para os professores indígenas. “É com muito orgulho que eu vejo o Governo do Estado reassumindo o trabalho que estava abandonado há alguns anos e que tem nos Wai Wai um exemplo do que vem ocorrendo com os demais povos indígenas do Estado, que além de resgatar o Magistério Indígena, tem hoje mais de mil estudantes cursando o Ensino Médio em suas aldeias, por meio do Sistema Organizado Modular de Ensino (Some)”, disse.
Conquista – Entre os formandos está Eduardo Francisco Wai Wai, de 42 anos. Ao seu lado, como paraninfa, estava a esposa Cinama Wai Wai, que acompanhou boa parte da jornada do professor indígena em busca de formação profissional. A história de vida de Eduardo retrata a busca de inúmeros indígenas por acesso ao ensino, qualificação profissional e autonomia.
Atualmente, Eduardo é aluno de três cursos em nível superior. Pedagogia, em uma faculdade particular, e licenciatura em Matemática e em Física, por meio do Parfor (Plano de Formação Docente do Estado do Pará) na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “A minha meta é chegar, em breve, ao Mestrado. Levei muito tempo para conseguir estudar realmente. Agora não quero parar tão cedo”, disse o formando.
Ele saiu da aldeia aos 14 anos, na década de 80, sem documentos e sem saber falar português. “Não sabia como era a vida na cidade. Trabalhei em roçados. Por sorte, conheci uma professora que me ajudou muito”, relata. Mas a estadia em Santarém, primeiro destino escolhido por ele, foi curta e não lhe deu tempo para concluir o Ensino Fundamental. Foi quando decidiu voltar para a aldeia e por lá ficou. Com quase 30 anos, retomou os estudos. Ingressou no curso de Magistério Indígena, destinado aos professores leigos (que só concluíram o Ensino Fundamental ou o Ensino Médio Regular).
“Comecei a estudar e dar aulas. Acho importante ensinar. Hoje faço faculdade, escolhi Pedagogia porque quero continuar na educação. Fico feliz de ver muitos indígenas concluindo o curso, porque como eu, sei que todos fizeram sacrifício para estar aqui. Hoje se entra no Ensino Médio com mais facilidade, e sem precisar sair da aldeia. Falo isso aos meus alunos. A oportunidade está lá, basta eles quererem”, defende o professor indígena, acrescentando que o conhecimento adquirido no ensino regular é importante para que os povos indígenas tenham seus próprios professores. “Para nós, indígenas, o ensino bilingue e intercultural é fundamental, sempre lembrando que o ensinamento da nossa cultura também acontece na prática, passada de pai para filho”, concluiu.


Texto:
Mari Chiba - Seduc

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