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Botos Tucuxi e Cor de Rosa apresentam espetáculo de folclore e cores no Çairé 2016

Tucuxi brinca com a menina cabocla.
Foto: Thiago Gomes
Em uma noite iluminada pela lua cheia e repleta de sedução, ritmo e cores, o Festival do Çairé chegou ao ápice na noite deste sábado (17) com o folclórico confronto entre os botos Tucuxi e Cor de Rosa. O duelo ocorreu diante de suas torcidas, no çairódromo Lago dos Botos, em Alter do Chão, distrito de Santarém, no oeste paraense. O embate entre os botos, que começou em 1997, representa a face profana da festividade religiosa que tem mais de três séculos de existência.


O Tucuxi foi o primeiro a se apresentar para o público de cerca de 15 mil pessoas. Tentando o bicampeonato, a agremiação apresentou o tema ‘’Festa das Cores’’, enquanto o Cor de Rosa defendeu o tema ‘’Encantos de Santarém’’. Além do confronto dentro da quadra, as torcidas fizeram um espetáculo à parte nas arquibancadas com velas, fitas e bandeiras em um clima de rivalidade acirrada.

A apresentação do atual campeão começou com a encenação do ritual indígena em que o curandeiro emanou proteção à floresta. Ato após ato, o Tucuxi apresentou coreografias, alegorias e efeitos especiais que homenageavam os processos manufaturados, belezas locais e contos folclóricos. O carimbó deu o tom da encenação. 

Após a apresentação do Tucuxi, o Cor de Rosa dominou o Lago dos Botos. O início foi com a entrada das alegorias da Cobra Grande pelo chão e com o Uirapuru pelo céu, que, por um guindaste posicionado ao lado da arena, trouxe o cantador da agremiação. A encenação prosseguiu com a representação do ritual indígena Dabacuri, que pede a proteção de Tupã, com a chegada das expedições portuguesas a Santarém e uma performance de carimboleiros e carimboleiras.

O ponto máximo das duas apresentações ocorreu quando o boto se transformou em homem para seduzir e engravidar as caboclas em noite de luar.

Tradição - ‘’A sensação de representar essa lenda é indescritível. Manter viva a cultura sobre nosso folclore é um dever de todos nós. Vou sentir saudade dessa emoção’’, disse Alex de Oliveira, 42, que viveu a versão humana do boto pela última vez após 15 anos representando a personagem. ‘’Fico feliz em ver que há uma nova geração sendo formada para continuar o que construímos’’, completou, afirmando que a lenda do boto que seduz as caboclas continua viva. ‘’Ouço histórias de mulheres que viram o boto voltar para o rio depois de seduzir a mulher escolhida. Há quem o espere na noite de lua cheia. O misticismo do boto vive, mas garanto que não sou um’’, brincou.

Na torcida do Tucuxi estavam as irmãs Thaís Ferreira Sousa Aguiar e Laís Ferreira Sousa Aguiar. Pela quinta vez seguida Thaís participou do confronto entre os botos, enquanto a irmã Laís sentia a emoção pela primeira vez. ‘’Minha paixão pelo Tucuxi foi à primeira vista. A encenação me envolve. Eu me sinto parte da lenda ano após ano’’, assinalou. ‘’A Thaís me convenceu a vir dizendo que eu viria algo inesquecível. Resolvi aceitar e não me arrependi. É tocante ver o envolvimento de todos com a cultura dessa forma apaixonada’’, atestou.

Enquanto o representante da forma humana do boto Tucuxi se despedia, o do Cor de Rosa comemorava o que pode se chamar o início de uma história. João Pedro Dias, 23, dá vida ao boto homem há cinco anos. ‘’Estou começando. Tenho o privilégio de encenar o Cor de Rosa. Eu, que sou filho de Alter do Chão, me sinto orgulhoso por desempenhar esse papel’’, frisou.

A paixão pelo Çairé é atemporal. Enquanto as jovens irmãs torciam pelo Tucuxi, no outro lado da arena, Jacira Teixeira, 62, vibrava pelo boto Cor de Rosa. Desde que viu a encenação profana pela primeira vez, em 1997, ela sempre foi ao Çairé. ‘’Amei ver como a lenda é retratada dentro do tema. O espetáculo nunca se repete. A sensação é de sempre estar vendo pela primeira vez, assim como os mais jovens que nunca tinham vindo’’, comparou, enquanto dançava com as irmãs que a acompanharam.

O Festival do Çairé continua até segunda-feira (19), quando haverá, pela manhã, a derrubada dos mastros que foram erguidos no início do evento, na última quinta (15). À tarde haverá a apuração do resultado da disputa entre Tucuxi e Cor de Rosa.

Os quesitos avaliados pelos jurados são: Apresentador, Cantador, Rainha do Sairé, Cabocla Borari, Curandeiro, Rainha do Artesanato, Boto Homem Encantador, Boto Animal, Rainha do Lago Verde, Carimbó, Organização do Conjunto Folclórico, Alegorias, Letra, Música, Ritual, Torcida, Evolução e Sedução. Os jurados emitem notas de sete a dez pontos cada um.

Agência Pará
Por Sérgio Moraes

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