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Dilma vence em uma eleição apertada

Em O Liberal:

Com uma diferença de apenas 3,3 pontos percentuais, a presidente Dilma Rouseff (PT) foi reeleita ontem e enfrentará um país rachado em seu segundo mandato. Na mais disputada eleição presidencial da história do país, ela ganhou mais quatro anos de mandado com 51,64% dos votos (54,5 milhões de eleitores) contra 48,36% (51 milhões) dados a Aécio Neves. No primeiro pronunciamento após a vitória, fez um apelo à união e ao entendimento, afirmando não acreditar que o país esteja dividido. A presidente assumiu como primeiro compromisso do segundo mandato o diálogo com a oposição.

“Conclamo brasileiros e brasileiras a nos unir em favor do futuro da pátria, do país e do nosso povo. Não acredito que essas eleições tenham dividido o país ao meio. Entendo, sim, que mobilizaram ideias e emoções às vezes contraditórias, mas movidas pela busca de um sentimento comum: um futuro melhor para o país. Em lugar de ampliar divergências e criar um fosso, tenho forte esperança de que a energia mobilizadora tenha preparado um bom terreno para construção de pontes”.

Desde 1989, quando Fernando Collor venceu Lula com uma diferença 4,9 pontos percentuais no segundo turno, o país não via uma eleição tão agressiva, marcada pelo intenso tiroteio verbal entre os dois candidatos. Além dos ataques ostensivos, a disputa também foi marcada pela guerra subterrânea e apócrifa nas redes sociais. Dilma, agora, quer juntar os cacos.

“O calor da disputa deve ser transformado agora em energia construtiva de um novo momento para o país. Com a força este sentimento mobilizador, é possível encontrar pontos em comum e construir uma boa base de entendimento para fazer o país avançar. Algumas vezes, na história, resultados apertados produziram resultados mais fortes e mais rápidos do que vitórias muito amplas. É essa a nossa esperança”.

Foi a terceira vez consecutiva que os brasileiros reelegeram um presidente. E a quarta vitória do PT, que completará 16 anos no poder. Dilma venceu em 15 estados, principalmente no Norte e Nordeste, enquanto Aécio bateu a petista em 12, concentrados no Sul e Centro-Oeste. O Sudeste rachou. São Paulo e Espírito Santo deram vitória ao tucano, enquanto Minas e Rio de Janeiro optaram pela petista. A maior diferença entre os dois foi registrada no Maranhão: 78,75% para Dilma e 21,25% para Aécio.

Um país com baixo crescimento e inflação em alta espera respostas urgentes do futuro governo. Pelas projeções do mercado financeiro, o Brasil só avançará 0,27% este ano e, no ano que vem, as estimativas não ultrapassam 1%. A inflação é outro nó: preços estão subindo no topo estipulado pelo governo. Em setembro, Dilma avisou que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não fica. Outras mudanças são aguardadas. “Governo novo, equipe nova”, garantiu a presidente durante a campanha.

DESAFIOS

Outro desafio urgente será enfrentar a seca histórica nos rios e represas que formam o Sistema Cantareira (SP). Se as chuvas abundantes do verão não vieram, a crise será desastrosa, obrigando o rodízio no abastecimento.

Dilma fez a campanha da desconstrução, misturando o discurso técnico - comparação de números - com a virulência. No primeiro turno, ameaçada por Marina Silva, acusou a adversária do PSB de incoerência ao trocar de partido três vezes e a mudar constantemente de posição. No segundo, a artilharia da presidente voltou-se principalmente para o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-2001), acusou os tucanos de preconceito com os pobres, e no desempenho de Aécio em Minas no primeiro turno, quando o candidato foi derrotado pelo PT na própria casa.

Aécio tentou empurrá-la para a lona com a munição produzida pelos depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, os deladores do esquema de corrupção descoberto pela Operação Lava Jato. Para reduzir os danos, ela prometeu aprovar leis mais rigorosas, como o projeto que pune os agentes públicos que enriquecem sem justificativa e o que transforme em crime a prática de caixa dois.

Para governar, Dilma terá de negociar com um Congresso que terá no senador Aécio Neves a principal referência da oposição. Na Câmara, tomarão assento 28 partidos, a maior parcela constituída de siglas médias e pequenas. PT e PMDB continuam com as maiores bancadas no Congresso Nacional, mas perderam algumas cadeiras. Em pauta, projetos importantes como a reforma política, apontada pela candidata vitoriosa como prioridade.

O resultado de ontem, com a vitória decidida no fio do bigode, é o última de uma sucessão de emoções que o país tem vivido desde de junho do ano passado, quando o Movimento Passe Livre (MPL) convocou um protesto em São Paulo contra o aumento nas tarifas do transporte público municipal que incendiou as ruas do país. Nestes 16 meses, os brasileiros se assustaram com os black blocs, envergonharam-se com a derrota da seleção para a Alemanha por 7 a 1 e se chocaram com a morte de Eduardo Campos em acidente aéreo no dia 13 de agosto.

Confirmado o resultado, Dilma iniciou o discurso da vitória citando o ex-presidente Lula, que estava a seu lado e participou ativamente da campanha petista no segundo turno. Porém, ao contrário de 2010, quando Lula a escolheu para disputar a sucessão e praticamente assumiu o comando da campanha, Dilma desta vez chamou para si o enfrentamento dos adversários. Ela quer provar que o “poste”, como era chamada há quatro anos, tem agora luz própria.

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